Um craque mundial, alguma vez
descansa?
"Claro! uma semana, uma semana e meia."
Apresentamos-vos um crack mundial, um
Messi, um Nadal, um Induraín ou um qualquer outro monstro
desportivo que queiram, mas que não goza do reconhecimento
mediático devido por triunfar em duas disciplinas minoritárias como
o esqui e as corridas de montanha. Com uma genética invejável, e
uns princípios e costumes de vida que o fizeram campeão antes mesmo
de começar a competir, Kilian é capaz de ganhar em intensos Kms
verticais de 30 minutos de duração ou bater recordes depois de
30horas de corrida. Alguém dá mais?
Fala-nos do teu
início...
Nasci em Cap del Rec, perto de
Puigerdá. O meu pai era guarda do refúgio da montanha. Quando eu
chegava da escola, a minha brincadeira era sair para o bosque com a
minha irmã, já que éramos os únicos miúdos que ali viviam.
Com apenas 3 anos, a minha mãe
levava-nos à noite a passear pelo campo e, ainda para mais, sem ser
pelos trilhos para que aprendêssemos a orientar-nos, a sentir com
os pés as variedades do terreno sem outra luz que a lua. Desta
forma, aprendíamos a utilizar outros sentidos.
Quando é que descobriste o
desporto de competição?
Comecei com o esqui de montanha. Desde
pequeno que sempre fui muito competitivo, mas nunca tinha encarado
a montanha como forma de competição porque, para mim, a montanha
era a minha casa. Conheci aos 13 anos o Centro de Tecnificación de
Font Romeu (da Federação Catalana de Desportos de Invierno). Já
tinha feito esqui de fundo porque no refúgio era a melhor forma de
nos movermos. Enquanto cadete e júnior os resultados foram
bons…ganhei o Campeonato do Mundo de Esqui de Montanha.
E quando é que chegas ao
running?
Descobri de forma natural as corridas
de montanha. Pessoas como Agusti Roc convidaram-me a descobri-las
como preparação para o Inverno. Comecei com alguns Kms verticais e
até aos 18 anos nunca participei em provas de subida e descida.
Nessa altura percebi que estava em forma e a partir dessa época,
comecei a fazer as duas temporadas.
Notaste muito o impacto ao
passares dos esquis para a corrida?
Realmente não notei muito porque já
treinava corrida a pé todos os Verões. Corria, quase todos os dias,
na montanha. Simplesmente ainda não competia. Por exemplo, desde os
13 anos que fazia o percurso de Cavalls del Vent.
Não é stressante ter uma
planificação diária de treinos a par de uma agenda
competitiva?
A verdade é que às vezes é,
principalmente porque começas a perguntar-te se estás ou não a
fazer bem as coisas. Quando tens um treinador, essa
responsabilidade é dele ou dela e acreditas que se te diz que faças
as coisas é porque é bom para ti. Mas bom, como os resultados têm
sido positivos, acabo por pensar que tenho tomado as decisões
adequadas e continuo em frente.
Kilian Jornet, alguma vez
descansa? Claro! Em Outubro descanso uma semana, uma
semana e meia. Depois faço outras duas semanas muito suaves e aí
planifico a temporada. Até ao final de Abril concentro-me no esqui.
É um macrociclo com muito volume até início de Janeiro.
De certeza que, no ginásio,
trabalhas muito a força...
Agora já não faço ginásio. Nos
primeiros anos da minha preparação, sim, mas agora com o esqui na
montanha é suficiente. Costumo fazer duas semanas de 25-35 horas,
depois uma de 15h para descarregar e depois repito. Em Dezembro
trabalho com muita intensidade, dois ou três dias de séries,
mantendo a quantidade. O trabalho de séries - fartlek - é muito
parecido à corrida, ainda que no Inverno trabalhe com tempos e não
com distâncias, ou seja, dois minutos intensos, dois suaves,
pirâmides…e faço também encostas. No Inverno treino quase todos os
dias e a maioria numa sessão dupla. À tarde procuro terrenos mais
planos.
O que é te falta trabalhar
mais ou melhorar? Trabalhar sobretudo o plano. Nas secções
planas perco muito tempo. Se é agreste mantenho bem o tempo, mas se
a pista é boa, em plano, custa-me muito. Outro problema que eu
tenho é a adaptação ao calor. Tenho mesmo que trabalhar melhor
isso!
Pode dizer-se que até agora
tiveste sorte com as lesões. Sim, a lesão mais grave que
tive foi uma rotura de rótula em 2006 e nada teve a ver com o
desporto porque ocorreu a saltar numa rua. Perdi quase todo o
Inverno! Mas nesse ano experimentei as corridas a pé no Verão para
matar o bichinho de estar parado. O ano passado tive uma queda com
os esquis, mas salvo isto nunca tive de estar parado por problemas
físicos.
O que é que preferes: subidas
ou descidas?
A descida e quanto mais técnica
melhor. Posso até dizer que sei que consigo alguma diferença em
relação aos meus rivais, ainda que De Gasperi me consiga acompanhar
muitas vezes. Nas subidas, melhorei muito. Nas descidas técnicas é
muito importante a visualização, a mentalização... É um automatismo
que te faz seguir em frente e isso, ajuda muito. Já apanhei alguns
sustos em treinos quando não paro de acelerar, mas quando chega o
momento baixas o stick e já está.
O que é que chegaste a fazer
no atletismo tradicional?
Na verdade nunca competi quase nada.
Em Font Romeu ao fazer séries com os africanos fiz alguns milhares
em 2:38. Nunca competi no asfalto porque o treino aborrece-me
muito. O cross atrai-me um pouco mais, mas claro, no Inverno estou
sempre metido no esqui e é-me impossível fazer outra coisa.
Kilian vive do Inverno ou do
Verão?
Depende, mas agora mais do Verão do
que do Inverno. Os contratos e prémios de Verão são mais
importantes do que os de Inverno. Creio que, pouco a pouco, as
coisas estão a evoluir. Marcas como Salomon, The North Face ou
Quechua estão a apostar economicamente em alguns atletas. Mas
depois há aquele discurso incoerente, defendido por França ou pelos
Estados Unidos, em que se se dão bons prémios nas corridas, o
doping irá aumentar. Assim nunca cresceremos! Em Italia, por
exemplo, as coisas funcionam bem pois há prémios sérios e um bom
controle antidopagem. Já no Ultra de Mont Blanc, que talvez seja a
prova mais prestigiada do mundo, aproveitam-se do nome que têm para
não dar nada aos melhores. A mim isso não me parece nada
bem!
Irrita-te triunfar em dois
desportos que não são especialidades olímpicas?
Não tenho qualquer problema por me
dedicar ao que faço porque me considero um afortunado por poder
fazer todos os dias o que realmente gosto. É evidente que gostava
de poder participar nuns Jogos Olímpicos. Acho que em 2018 vai
haver opções de esqui de montanha e pode ser que para mim se torne
num objectivo.
Quais são os teus objectivos
para 2012, em todos os campos?
De momento, estão todos centrados no
esqui de montanha com a Taça do Mundo e os Campeonatos da Europa.
Ainda que vá ser muito difícil repetir o mesmo do ano passado. Além
disso, há as provas clássicas como Pierra Menta, Patroulle Des
Glaciers e Tour de Rutor, em que tenho muita vontade de participar
com um grande amigo, Marc Pinsach. Correr com alguém que conheces
como a um irmão é muito especial.
No que diz respeito ao trail running
nem tudo está definido, mas vou de certeza correr muito mais nos
Estados Unidos. Quero descobrir e passar mais tempo nesse país. Em
Espanha seguramente vou correr com Zegama e com Transvulcania, mas
ainda não há nada decidido.
Até quando te vês com novos
objectivos e campeonatos? Alguma vez te vamos ver
noutro desporto?
Ainda tenho muitos objectivos e metas
por cumprir ligados à montanha. Não consigo ver-me em mais nenhum
desporto porque o esqui e a corrida são a minha forma de estar na
montanha. E esse é o meu objectivo.
Alguma vez algum atleta
"tradicional" te chamou a atenção?
Haile Gebrselassie e El Guerrouj.
E outros desportistas que
admires ou que já tenhas admirado?
Walter Bonnati, por mudar o alpinismo
e a sua forma de vida, Jean Marc Boivin, Bruno Brunod…
Se não tivesses sido esquiador
de montanha, o que é que terias gostado de ser? No
desporto, ou fora dele.
Qualquer actividade que me tivesse
permitido estar em contacto permanente com a montanha.
E para terminar, uma
reflexão... No inicio do teu livro deixas a tua
filosofia de vida e de desportista muito clara, mas abres a porta a
uma dupla vertente. Por um lado, falas de um miúdo que queria
dedicar-se a "contar lagos", que adora descobrir caminhos e picos
novos, ou seja, um apaixonado pela natureza. Por outro lado, falas
da agonia do desportista de alto nível, o "Kiss or Kill", a luta
que diferencia uma vitória e um vencedor. Estas duas opções são, de
certa forma, antagónicas e gostaria de saber com qual te
identificas mais.
Sou uma pessoa que vivo num grande
paradoxo. Por um lado, sou muito competitivo, gosto de ganhar. Por
outro, sou um romântico da montanha, gosto da solidão, de escutar,
de sentir… Necessito encontrar o equilíbrio entre ambas as facetas.
O treino serve-me para estar com a montanha e a competição para
saciar a fome de vencer. E mesmo assim são períodos. Há momentos em
que quero estar dois ou três meses a competir duas vezes por
semana, e outros em que quero estar três ou quatro meses na
montanha, sem ver vivalma.
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