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Kilian Jornet, o extraterrestre? 27-12-2011

Um craque mundial, alguma vez descansa?
"Claro! uma semana, uma semana e meia."

 

Apresentamos-vos um crack mundial, um Messi, um Nadal, um Induraín ou um qualquer outro monstro desportivo que queiram, mas que não goza do reconhecimento mediático devido por triunfar em duas disciplinas minoritárias como o esqui e as corridas de montanha. Com uma genética invejável, e uns princípios e costumes de vida que o fizeram campeão antes mesmo de começar a competir, Kilian é capaz de ganhar em intensos Kms verticais de 30 minutos de duração ou bater recordes depois de 30horas de corrida. Alguém dá mais?

Fala-nos do teu início...

Nasci em Cap del Rec, perto de Puigerdá. O meu pai era guarda do refúgio da montanha. Quando eu chegava da escola, a minha brincadeira era sair para o bosque com a minha irmã, já que éramos os únicos miúdos que ali viviam.

 

 

 

Com apenas 3 anos, a minha mãe levava-nos à noite a passear pelo campo e, ainda para mais, sem ser pelos trilhos para que aprendêssemos a orientar-nos, a sentir com os pés as variedades do terreno sem outra luz que a lua. Desta forma, aprendíamos a utilizar outros sentidos. 

Quando é que descobriste o desporto de competição?

Comecei com o esqui de montanha. Desde pequeno que sempre fui muito competitivo, mas nunca tinha encarado a montanha como forma de competição porque, para mim, a montanha era a minha casa. Conheci aos 13 anos o Centro de Tecnificación de Font Romeu (da Federação Catalana de Desportos de Invierno). Já tinha feito esqui de fundo porque no refúgio era a melhor forma de nos movermos. Enquanto cadete e júnior os resultados foram bons…ganhei o Campeonato do Mundo de Esqui de Montanha.  

E quando é que chegas ao running?

Descobri de forma natural as corridas de montanha. Pessoas como Agusti Roc convidaram-me a descobri-las como preparação para o Inverno. Comecei com alguns Kms verticais e até aos 18 anos nunca participei em provas de subida e descida. Nessa altura percebi que estava em forma e a partir dessa época, comecei a fazer as duas temporadas.

Notaste muito o impacto ao passares dos esquis para a corrida?

Realmente não notei muito porque já treinava corrida a pé todos os Verões. Corria, quase todos os dias, na montanha. Simplesmente ainda não competia. Por exemplo, desde os 13 anos que fazia o percurso de Cavalls del Vent. 

Não é stressante ter uma planificação diária de treinos a par de uma agenda competitiva?

A verdade é que às vezes é, principalmente porque começas a perguntar-te se estás ou não a fazer bem as coisas. Quando tens um treinador, essa responsabilidade é dele ou dela e acreditas que se te diz que faças as coisas é porque é bom para ti. Mas bom, como os resultados têm sido positivos, acabo por pensar que tenho tomado as decisões adequadas e continuo em frente.

Kilian Jornet, alguma vez descansa? Claro! Em Outubro descanso uma semana, uma semana e meia. Depois faço outras duas semanas muito suaves e aí planifico a temporada. Até ao final de Abril concentro-me no esqui. É um macrociclo com muito volume até início de Janeiro.

De certeza que, no ginásio, trabalhas muito a força...

Agora já não faço ginásio. Nos primeiros anos da minha preparação, sim, mas agora com o esqui na montanha é suficiente. Costumo fazer duas semanas de 25-35 horas, depois uma de 15h para descarregar e depois repito. Em Dezembro trabalho com muita intensidade, dois ou três dias de séries, mantendo a quantidade. O trabalho de séries - fartlek - é muito parecido à corrida, ainda que no Inverno trabalhe com tempos e não com distâncias, ou seja, dois minutos intensos, dois suaves, pirâmides…e faço também encostas. No Inverno treino quase todos os dias e a maioria numa sessão dupla. À tarde procuro terrenos mais planos.

O que é te falta trabalhar mais ou melhorar? Trabalhar sobretudo o plano. Nas secções planas perco muito tempo. Se é agreste mantenho bem o tempo, mas se a pista é boa, em plano, custa-me muito. Outro problema que eu tenho é a adaptação ao calor. Tenho mesmo que trabalhar melhor isso!

Pode dizer-se que até agora tiveste sorte com as lesões. Sim, a lesão mais grave que tive foi uma rotura de rótula em 2006 e nada teve a ver com o desporto porque ocorreu a saltar numa rua. Perdi quase todo o Inverno! Mas nesse ano experimentei as corridas a pé no Verão para matar o bichinho de estar parado. O ano passado tive uma queda com os esquis, mas salvo isto nunca tive de estar parado por problemas físicos.  

O que é que preferes: subidas ou descidas?

A descida e quanto mais técnica melhor. Posso até dizer que sei que consigo alguma diferença em relação aos meus rivais, ainda que De Gasperi me consiga acompanhar muitas vezes. Nas subidas, melhorei muito. Nas descidas técnicas é muito importante a visualização, a mentalização... É um automatismo que te faz seguir em frente e isso, ajuda muito. Já apanhei alguns sustos em treinos quando não paro de acelerar, mas quando chega o momento baixas o stick e já está.

O que é que chegaste a fazer no atletismo tradicional?

Na verdade nunca competi quase nada. Em Font Romeu ao fazer séries com os africanos fiz alguns milhares em 2:38. Nunca competi no asfalto porque o treino aborrece-me muito. O cross atrai-me um pouco mais, mas claro, no Inverno estou sempre metido no esqui e é-me impossível fazer outra coisa.

Kilian vive do Inverno ou do Verão?

Depende, mas agora mais do Verão do que do Inverno. Os contratos e prémios de Verão são mais importantes do que os de Inverno. Creio que, pouco a pouco, as coisas estão a evoluir. Marcas como Salomon, The North Face ou Quechua estão a apostar economicamente em alguns atletas. Mas depois há aquele discurso incoerente, defendido por França ou pelos Estados Unidos, em que se se dão bons prémios nas corridas, o doping irá aumentar. Assim nunca cresceremos! Em Italia, por exemplo, as coisas funcionam bem pois há prémios sérios e um bom controle antidopagem. Já no Ultra de Mont Blanc, que talvez seja a prova mais prestigiada do mundo, aproveitam-se do nome que têm para não dar nada aos melhores. A mim isso não me parece nada bem! 

Irrita-te triunfar em dois desportos que não são especialidades olímpicas?

Não tenho qualquer problema por me dedicar ao que faço porque me considero um afortunado por poder fazer todos os dias o que realmente gosto. É evidente que gostava de poder participar nuns Jogos Olímpicos. Acho que em 2018 vai haver opções de esqui de montanha e pode ser que para mim se torne num objectivo.

Quais são os teus objectivos para 2012, em todos os campos?

De momento, estão todos centrados no esqui de montanha com a Taça do Mundo e os Campeonatos da Europa. Ainda que vá ser muito difícil repetir o mesmo do ano passado. Além disso, há as provas clássicas como Pierra Menta, Patroulle Des Glaciers e Tour de Rutor, em que tenho muita vontade de participar com um grande amigo, Marc Pinsach. Correr com alguém que conheces como a um irmão é muito especial.

No que diz respeito ao trail running nem tudo está definido, mas vou de certeza correr muito mais nos Estados Unidos. Quero descobrir e passar mais tempo nesse país. Em Espanha seguramente vou correr com Zegama e com Transvulcania, mas ainda não há nada decidido.

Até quando te vês com novos objectivos e campeonatos? Alguma vez te vamos ver noutro desporto?

Ainda tenho muitos objectivos e metas por cumprir ligados à montanha. Não consigo ver-me em mais nenhum desporto porque o esqui e a corrida são a minha forma de estar na montanha. E esse é o meu objectivo.

Alguma vez algum atleta "tradicional" te chamou a atenção?

Haile Gebrselassie e El Guerrouj.

E outros desportistas que admires ou que já tenhas admirado?

Walter Bonnati, por mudar o alpinismo e a sua forma de vida, Jean Marc Boivin, Bruno Brunod…

Se não tivesses sido esquiador de montanha, o que é que terias gostado de ser? No desporto, ou fora dele.

Qualquer actividade que me tivesse permitido estar em contacto permanente com a montanha.

E para terminar, uma reflexão... No inicio do teu livro deixas a tua filosofia de vida e de desportista muito clara, mas abres a porta a uma dupla vertente. Por um lado, falas de um miúdo que queria dedicar-se a "contar lagos", que adora descobrir caminhos e picos novos, ou seja, um apaixonado pela natureza. Por outro lado, falas da agonia do desportista de alto nível, o "Kiss or Kill", a luta que diferencia uma vitória e um vencedor. Estas duas opções são, de certa forma, antagónicas e gostaria de saber com qual te identificas mais.

Sou uma pessoa que vivo num grande paradoxo. Por um lado, sou muito competitivo, gosto de ganhar. Por outro, sou um romântico da montanha, gosto da solidão, de escutar, de sentir… Necessito encontrar o equilíbrio entre ambas as facetas. O treino serve-me para estar com a montanha e a competição para saciar a fome de vencer. E mesmo assim são períodos. Há momentos em que quero estar dois ou três meses a competir duas vezes por semana, e outros em que quero estar três ou quatro meses na montanha, sem ver vivalma.


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