Linhas orientadoras para a hidratação: gestão de bebidas
para o desportista
Hidratação antes do exercício
Os desportistas devem estar bem hidratados antes de iniciar
sessões de treino ou competições. A variação do peso pode ser usada
como um indicador para a hidratação correcta. Um indivíduo
pode considerar-se correctamente hidratado se o seu peso de
manhã, antes de comer ou beber, for estável: variar menos
de 1% de um dia para o outro. Nas mulheres o ciclo menstrual tem de
ser tido em consideração, já que pode haver um ganho de peso
durante a fase luteal devido a uma maior retenção de água.
A desidratação será mínima com uma perda de 1 a 3% do peso
corporal, moderada entre 3 a 5% e acentuada se superar os 5%.
Se forem ingeridos líquidos suficientes com as refeições e se
houver um descanso apropriado (8-12 horas) relativamente ao último
treino, é altamente provável que o desportista esteja hidratado67.
Se tal não for possível o American College of Sports
Medicine recomenda o seguinte programa de
pré-hidratação:
- Beber 5 a 7 ml/kg lentamente nas 4 horas anteriores ao início do
exercício. Se o indivíduo não conseguir urinar ou se a urina for
escura ou altamente concentrada, a ingestão deve ser aumentada,
acrescentado 3 a 5 ml/kg nas últimas 2 horas antes do
exercício.
- As bebidas com 20-50 mEq/L de sódio e as refeições com sal
suficiente podem ajudar a estimular a sede e a retenção dos fluidos
consumidos.
- Em atmosferas quentes e húmidas é aconselhável beber meio litro
de líquidos com sais minerais na hora anterior ao início da
competição, dividida em 4 ingestões a cada 15 minutos (200 ml por
cada 15 minutos).
Se o exercício que a ser realizado durar mais de uma hora,
recomenda-se a inclusão de hidratos de carbono na bebida,
especialmente nas duas últimas ingestões.
A ingestão de água com glicerol não é recomendável antes do
exercício uma vez que não melhora a performance desportiva e pode
causar efeitos secundários como: náuseas, desconforto
gastrointestinal, dores de cabeça e um aumento do peso. Para além
disso, a hiperhidratação produzida aumenta o risco de desenvolver
hiponatremia.
Melhorar o sabor dos fluidos é uma das formas de promover
o seu consumo. O consumo irá depender bastante da
temperatura (15-21ºC), da quantidade de sódio que contém e do tipo
de hidrato de carbono utilizado.
Reidratação durante o exercício
O objectivo passa por conseguir que o desportista ingira líquidos
em quantidade suficiente para manter o equilíbrio
hidro-electrolítico e o volume de plasma correcto durante o
exercício. Trinta minutos após o início da actividade começa a ser
necessário compensar a perda de líquidos e após uma hora é
essencial.
Recomenda-se a ingestão de entre 6 e 8 mililitros de líquido por
quilo e por hora de exercício (aproximadamente 400 a 500 ml/h ou
150-200 ml a cada 20 minutos). Não é aconselhável ingerir mais
fluidos dos que os necessários para compensar o deficit hídrico.
Estas recomendações actuais contrastam com as que eram feitas até
há bem pouco tempo: 10 a 12 ml/kg/h e beber tanto quanto possível
para evitar uma descida do peso durante o exercício.
A temperatura ideal dos líquidos deverá encontrar-se entre
os 15 e os 21 graus. As bebidas mais frias atrasam a
absorção e podem provocar ocasionalmente lipotimia e desmaios,
enquanto as bebidas quentes não são apelativas, sendo bebidas em
menor quantidade.
Reidratação pós-esforço
A reidratação deve começar assim que o exercício termina. O
principal objectivo é o restabelecimento imediato das funções
fisiológicas cardiovasculares, musculares e metabólicas,
compensando os líquidos perdidos e a constituição dos solutos
durante a realização do exercício.
Se a perda de peso durante o treino ou competição for superior a
2% do peso é aconselhável ingerir líquidos mesmo sem sentir sede e
colocar mais sal na comida. A ingestão de pelo menos 150% do peso
perdido é recomendada nas primeiras 6 horas após o exercício, para
compensar o líquido eliminado através do suor e da urina,
recuperando o equilíbrio hídrico.
Os indivíduos melhor preparados desenvolvem sistemas de
arrefecimento eficientes (transpiração), para consumirem
mais líquidos.
O aumento do volume de plasma está directamente ligado com o
volume de líquido ingerido e com a concentração de sódio.
A ressíntese de glicogénio muscular e hepático (usado durante o
exercício) é maior nas primeiras duas horas após o esforço.
Como resultado as bebidas de reidratação após o exercício
devem conter sódio e hidratos de carbono e devem ser consumidas
assim que possível.
Estudos recentes demonstram que o exercício induz nos músculos
activos a libertação de interleucina 6, que por sua vez estimula a
libertação de cortisol, favorecendo os dois processos
imunossupressores. A suplementação com hidratos de carbono diminui
a concentração de interleucina 6, reduz a descida em número e
actividade dos linfócitos, minimizando os efeitos imunossupressivos
do exercício.
CONSENSO BASEADO EM FACTOS
A actividade física aumenta a produção de suor, que produz uma
perda de água e de electrólitos, especialmente em condições de
termo-regulação adversas.
As perdas de água e de electrólitos em diferentes desportos
apresentam uma grande variabilidade entre indivíduos.
Facto Nível Ia
Se a homeostase não for restaurada antes da actividade, o
desportista ficará desidratado.
Facto Nível Ia
A desidratação afecta a performance desportiva.
Facto Nível Ia
A reidratação apenas com água não soluciona o problema e pode até
agravar com a hiponatremia.
Facto Nível Ia
O sódio é o único ião que provou ser eficaz em estudos de
reposição com líquidos.
Facto Nível Ia
O fornecimento de hidratos de carbono nas bebidas de reidratação
melhora a performance dos desportistas.
Facto Nível Ia
É importante ingerir hidratos de carbono durante o exercício
físico, em especial para os esforços que durem mais de 1 hora, e
imediatamente após o esforço.
Facto Nível Ia
A carga energética da bebida e a sua osmolalidade determinam a
velocidade do esvaziamento gástrico.
Facto Nível Ia
Não existe qualquer diferença de termo-regulação entre
desportistas homens e mulheres.
Facto Nível IIa
Os desportistas podem ter uma ideia razoavelmente aproximada sobre
o seu grau de desidratação observando a cor da urina e a diferença
de peso antes e após o exercício.
Facto Nível IIa
É aconselhável juntar iões de potássio em bebidas de reposição
após o esforço físico, uma vez que ajuda a reter água no espaço
intra-celular, embora a concentração não deva ser superior a 10
mmol/L.
Facto nível IIb
Os outros iões são irrelevantes para a reposição de líquidos após
esforços que durem menos de 4 horas.
Facto nível IV
A presença de proteínas em bebidas pós-exercício favorece um
anabolismo muscular.
Facto nível Ib
A presença de lípidos estruturados derivados do DHA diminui o uso
de hidratos de carbono durante o esforço.
Facto nível Ib
A presença de antioxidantes em bebidas de reposição pode ser
aconselhável.
Facto nível Ib
A ingestão de diferentes bebidas ajuda a reidratação aumentando a
ingestão hídrica (mais apetecível).
Facto nível Ib
A presença de aminoácidos ramificados nas bebidas antes da
competição diminui a "fadiga central".
Facto nível IIb
Facto nível
- Ia: O facto é proveniente de meta-análise de
estudos bem desenhados e controlados aleatoriamente.
- Ib: O facto tem origem em pelo menos um estudo
controlado aleatoriamente.
- IIa: O facto tem origem em pelo menos um estudo
bem desenhado não controlado aleatoriamente.
- IIb: O facto tem origem em pelo menos um estudo
bem desenhado, não completamente experimental, como estudos de
coorte. Refere-se à situação em que a aplicação de uma intervenção
está para além do controlo dos investigadores, mas os seus efeitos
podem ser avaliados.
- III: O facto tem origem em estudos descritivos
não experimentais bem desenhados, como estudos comparativos,
estudos de correlação ou case studies e controlos.
- IV: O facto tem origem em documentos ou
opiniões de comités de especialistas ou experiências clínicas de
autoridades prestigiadas ou estudo de case series.
Consenso sobre bebidas para desportistas. Composição e
linhas orientadoras para líquidos de reposição.
Documento de consenso da Federação Espanhola de Medicina
Desportiva
Nieves Palacios Gil-Antuñano (Coordenador)
Luis Franco Bonafonte, Pedro Manonelles Marqueta,
Begoña Manuz González, José A. Villegas Garcia
Grupo de Trabalho "Nutrição no Desporto" da Federação de
Medicina Desportiva Espanhola
Comentários